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Falibilidade e Infalibilidade Bíblica--Uma Visão Equilibrada

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Prof. Azenilto G. Brito
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Falibilidade e Infalibilidade Bíblica--Uma Visão Equilibrada

Mensagem por Prof. Azenilto G. Brito em Sab 18 Abr 2015, 22:21

FALIBILIDADE E INFALIBILIDADE BÍBLICA -- UMA VISÃO EQUILIBRADA

Este artigo é uma condensação de material muito mais amplo, tendo 3 partes. Eis os títulos e subtítulos das diferentes partes até a Condensação:

Parte 1:

- Objetivos.

PARTE 1

*Ataques Contra a Bíblia

- Tentativas Católicas de Impedir a Leitura da Bíblia.
- Tentativas Protestantes de Impedir a Circulação da Bíblia.
- Ataques Comunistas Contra a Bíblia
- Conclusão


PARTE 2

* Criticismo Bíblico

- Definição de Criticismo Bíblico

- O Impacto Negativo do Criticismo Bíblico
- O Impacto Negativo é Largamente Reconhecido
- Uma Crise Sem Precedentes
- As Raízes Ideológicas da Alta Crítica Bíblica
- Racionalismo
- Evolucionismo
- O Desenvolvimento Histórico da Alta Crítica Bíblica
- Crítica Bíblica do Velho Testamento.  
- Crítica Bíblica do Novo Testamento
- Conclusão

* Uma Avaliação da Crítica Bíblica

- Pressupostos Subjacentes
- Os Métodos da Crítica Bíblica
- A Teoria Documentária
- Ensina Deus a Verdade por Meio de Falsidade?
- As Limitações da Crítica Bíblica
- O Espírito da Crítica Bíblica
- Conclusão

- NOTAS DE RODAPÉ

PARTE 3

* Inerrância Bíblica

- Absoluta Inerrância.
- Inerrância limitada.
- Um Breve Histórico do Debate Sobre Inerrância
- A Batalha Pela Bíblia.
- Os Argumentos Pela Inerrância
- Argumento Bíblico.  
- Avaliação.

[Na presente condensação constam as demais subdivisões. Os que desejarem o estudo completo podem nos solicitar pelo e-mail: profazenilto@hotmail.com]


Eram os Autógrafos Originais Inerrantes? Os defensores da inerrância absoluta reivindicam que somente os autógrafos originais eram inerrantes, não a Bíblia existente. Isso significa que as discrepâncias e erros existentes seriam supostamente o resultado de erros transmissionais. Os exemplares originais de vários livros da Bíblia eram isentos de erro. É dito que eram inerrantes porque Deus inspirou os redatores da Bíblia a escreverem sem erro.

O apelo aos manuscritos originais para explicar os erros existentes deixa uma porta aberta de escape permanente para os inerrantistas. Não importa quão evidente seja um erro, eles podem sempre evadir-se do questionamento alegando que se trata de um erro de transmissão, que não se fazia presente no manuscrito original. Este argumento, como assinala Stephen Davis, “parece intelectualmente desonesto, especialmente se não há evidência textual de que o alegado erro deve-se de fato a um problema de transmissão”.[1]

O estudo científico de leituras variantes dos manuscritos da Bíblia tem evoluído a ponto de eruditos poderem estabelecer com impressionante exatidão a leitura dos manuscritos originais. Ademais, esses problemas são poucos em comparação com o texto integral da Bíblia e não afeta os seus ensinos.

A tentativa dos inerrantistas de limitarem os manuscritos originais é negado também pelo fato de que Jesus, Paulo, e outros autores neotestamentários, trataram os livros do Velho Testamento como inspirados, conquanto jamais vissem ou empregassem um manuscrito original. Aparentemente, Paulo considerava mesmo a Septuaginta—a tradução grega do Velho Testamento—como Escrituras, pois ele cita dele em Rom. 4:3, acrescentando: “que diz a Escritura?” Se um escrito é inspirado somente se é inerrante, então como poderia Paulo tratar a Septuaginta como “Escritura”, quando é bem sabido ser inexata em vários lugares?

Finalmente, “se ter uma Bíblia inerrante é tão crucial quanto os advogados da inerrância deixam implícito—por que Deus não assegurou de algum modo que nós hoje possuíssemos um texto inerrante, seja dos próprios autógrafos bíblicos ou de cópias deles isentos de imprecisões?” [2]. A resposta é óbvia. O fato de que nenhum cristão desde os tempos apostólicos jamais viu manuscritos originais ou cópias perfeitas, sugere que Deus não via como vital para nós ter uma Bíblia inerrante.

Nossa conclusão é que a Bíblia é inspirada, normativa e tem autoridade para definir nossas crenças e práticas, mas a inspiração não pressupõe inerrância em todas as informações que ela dá.  

O Argumento Histórico. Os inerrantistas reivindicam que a crença na inerrância da Bíblia tem sido a posição histórica e normativa da Igreja Cristã. Por exemplo, em seu livro The Battle For the Bible, Lindsell argumenta que a maioria, se não todos, os Pais da Igreja e Reformadores sustinham em princípio a doutrina da inerrância bíblica. Conseqüentemente, tal doutrina não foi inventada por fundamentalistas do século XIX, mas reflete a posição histórica da Igreja Cristã.[3]

Deve-se admitir que alguns Pais da Igreja e Reformadores realmente dão a impressão de que criam na inerrância absoluta. Por exemplo, Lutero declarou: “A Escritura não pode errar”, e “As Escrituras nunca erraram”.[4] Semelhantemente, Calvino referiu-se às Escrituras como “o padrão inerrante”, “a infalível regra de Sua Santa Verdade”, “livre de toda mácula ou defeito”.[5]

Avaliação. Declarações como essas podem levar os leitores mal informados a concluir que Lutero e Calvino criam na inerrância bíblica. Contudo, esta conclusão deixa de reconhecer duas coisas. Primeiro, os Reformadores falam da inerrância da Bíblia no contexto da rejeição deles da autoridade da Igreja Católica para definir doutrinas. Para eles “inerrância” essencialmente significava a autoridade infalível da Sola Scriptura versus autoridade interpretativa da Igreja Católica. Em seu livro The Authority and Interpretation of the Bible: An Historical Approach, Jack Rogers e Donald McKim, demonstram convincentemente que a noção contemporânea de inerrância era desconhecida dos Reformadores e durante muito da história Cristã.

Em segundo lugar, a noção dos Reformadores de inerrância era condicionada por suas crenças doutrinárias. Por exemplo, é fato bem sabido que Lutero tinha pouco respeito por livros tais da Bíblia como Tiago e Apocalipse porque não apoiavam o seu dominante ensino de justificação pela fé. Semelhantemente, Calvino revela uma atitude arrogante para com algumas dificuldades na Bíblia.[6]

Isso está ocorrendo hoje em certa extensão também. A preocupação primária daqueles que argumentam em defesa da absoluta inerrância bíblica, alegando ser a posição histórica da Igreja Cristã, não é tanto para reforçar a autoridade normativa da Escritura, mas para validar o seu sistema de doutrinas e práticas. A inerrância que atribuem à Escritura é transferida para as doutrinas que esposam. Em última instância, a preocupação dos inerrantistas é provar que suas doutrinas são isentas de erro, porque se baseiam numa Bíblia inerrante.

O problema com esta estratégia é que a luta que há muito se desenvolve para defender a inerrância bíblica não tem tido êxito em garantir uniformidade doutrinária. Os cristãos igualmente comprometidos com a inerrância interpretam a Escritura diferentemente. Por exemplo, há inerrantistas que crêem na ordenação de mulheres e inerrantistas que se opõem a isso. A questão crucial não é inerrância, mas interpretação.

Por fim, a posição histórica da Igreja Cristã sobre qualquer ensino não garante a sua ortodoxia. A maioria dos dirigentes eclesiásticos tem crido historicamente na imortalidade da alma, tormento eterno e santidade do domingo, contudo pesquisa bíblica tem demonstrado que esses ensinos são alheios à Escritura.

O Argumento Epistemológico. Este argumento aparece em formas diferentes. A idéia básica é que a menos que a Bíblia seja isenta de erro em toda simples declaração que faça, então a confiabilidade de todos os seus ensinos torna-se suspeita. Para o inerrantista, a presença de mesmo um erro na Bíblia resultaria na perda de confiança em todos os seus ensinos. Como Dan Fuller expressou, “se mesmo uma de suas declarações estivesse em erro, a verdade de qualquer de suas declarações se torna questionável”.[7]

Avaliação. O problema fundamental desse argumento é o seu pressuposto não comprovado de que a menos que cada declaração da Bíblia seja sem erro, todos os seus ensinos se tornam suspeitos. Condicionar a confiabilidade dos ensinos bíblicos à absoluta exatidão de seus detalhes históricos, geográficos ou científicos representa impor aos autores bíblicos critérios modernos de inspiração que lhes eram estranhos.

Em parte alguma os autores bíblicos reivindicam que todas as suas declarações sejam inerrantes. A razão é que, para eles, os principais eventos ou mensagens, eram mais importantes do que seus detalhes circunstanciais. Dois exemplos servirão para ilustrar este ponto. O primeiro é o problema do “bordão”. Ao enviar Seus discípulos numa missão de pregação, Marcos nos diz que Jesus permitiu-lhes levar um bordão. “Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, exceto apenas um bordão; nem pão, nem alforge, nem dinheiro” (Mar. 6:8').

Mateus e Lucas, porém, apresentam Jesus proibindo especificamente que levassem um bordão: “Não vos provereis de ouro, nem de prata, nem de cobre nos vossos cintos; nem de alforje para o caminho, nem de duas túnicas, nem de sandálias, nem de bordão” (Mat. 10:9-10). “Nada leveis para o caminho, nem bordão, nem alforje, nem pão, nem dinheiro” (Luc. 9:3). É óbvio que os dois relatos são incoerentes e pelo menos um dos evangelhos está em erro. Mas essa incoerência não destrói a confiança no relato, isto e, a comissão de Cristo aos discípulos. Para os autores dos evangelhos aparentemente o evento era mais importante do que os seus detalhes.

O segundo exemplo é o problema da data da morte de Cristo. Segundo os sinóticos, Jesus foi crucificado em 15 de Nisã após a ceia da Páscoa com os Seus discípulos na noite anterior (Mar. 14:12-25; Mat. 26:17-29; Luc. 22:7-20). Mas, de acordo com João, a crucifixão teve lugar em 14 de Nisã, antes de comerem a Páscoa (João 19:14).

A discrepância entre as duas datas da crucifixão de Cristo dificilmente pode ser atribuída a erros transmissionais, porque aparece em todos os manuscritos disponíveis. Mais provavelmente, os sinóticos tiveram suas próprias razões para datarem a crucifixão de Cristo de forma diversa de João. Incontáveis tentativas têm sido feitas para conciliar as duas cronologias.

Neste contexto nossa preocupação não é resolver a discrepância entre as duas datas da crucifixão, mas simplesmente demonstrar que a presença de tal “erro” flagrante não destrói nossa confiança na verdade fundamental da morte expiatória de Cristo. De um ponto de vista bíblico, as verdades fundamentais como sejam, a morte e ressurreição de Cristo, não se condicionam à precisão de detalhes circunstanciais dos eventos.

Até Edward Carnell, firme advogado da inerrância, admite ser “extremamente difícil, se não impossível, ajustar todos os dados bíblicos numa harmonia ideal. Mas essa falta de precisão de modo algum afeta a substância do sistema bíblico 8. A credibilidade das grandes doutrinas da Bíblia não depende da precisão de detalhes circunstanciais. O temor de que se a inerrância entra em colapso as grandes doutrinas da Bíblia também entram em colapso, é infundado. O fato é que tais  doutrinas são universalmente cridas, até  por cristãos que não acatam a noção de inerrância.

O Argumento do Barranco Escorregadio. Esse argumento é semelhante ao argumento epistemológico há pouco considerado. Sua diferença básica é que relaciona inerrância, não com a confiabilidade global da Bíblia, mas com o seu impacto sobre o futuro das Igrejas e instituições. Basicamente reivindica que renunciar à inerrância finalmente leva denominações e seminários a renunciar a todas as outras doutrinas bíblicas.

Harold Linsell alega que sem o arcabouço da inerrância, o mundo evangélico seria um caos. Explica como a infecção se espalha, afirmando que “A história nos fornece notáveis exemplos de instituições e denominações que se desviaram. Às vezes não é fácil perceber como isso sedeu. A tendência de afastar-se da ortodoxia pode ser vagarosa em movimento, gradual em seu escopo, e quase invisível a olho nu. Quando as pessoas acordam ao que está se passando, é tarde demais”.[9]

Ele prossegue comparando a rejeição da inerrância com um câncer, que começa como uma pequena mancha na pele e, se deixada sem exame, cresce e se espalha por todo o organismo.

Avaliação. Este argumento tem base no equivocado pressuposto de que uma instituição ou indivíduo que nega a inerrância findará abandondo outras doutrinas bíblicas. Tal pressuposto é negado pelo fato de a maioria dos cristãos aceitarem os ensinos da Bíblia firmados no que é explicitamente ensinado nela, apesar da possível presença de detalhes secundários e imprecisos.

É verdade que o surgimento da crítica bíblica erodiu o comprometimento de pessoas e Igrejas para com doutrinas bíblicas fundamentais. Mas esta não é uma razão para tornar a inerrância uma doutrina obrigatória para todos os cristãos. O fato de que a crítica bíblica tem causado um impacto devastador sobre denominações e instituições não significa que o mesmo será verdade com a negação de inerrância. A prova é a existência de numerosas igrejas evangélicas, incluindo nossa própria Igreja Adventista do Sétimo Dia, que firmemente crê na confiabilidade da Bíblia e suas doutrinas fundamentais, enquanto rejeita a noção de inerrância absoluta.

A inerrância não garante a ortodoxia. As ‘testemunhas de Jeová’ apegam-se vigorosamente à inerrância, contudo seus ensinos dificilmente são ortodoxos. Entre outras coisas, negam a pré-existência divina de Cristo—uma verdade bíblica fundamental que garante o valor salvífico do sacrifício expiatório de Cristo. A questão derradeira não é quais serão os efeitos pragmáticos de crer ou não crer na inerrância bíblica, mas se tal doutrina é verdadeira.

Ademais, o argumento do barranco escorregadio é insultante e divisivo. É insultante sugerir para crentes que a menos que aceitem a absoluta inerrância da Bíblia, por fim se acharão deslizando num barranco escorregadio precipitando-se à apostasia. É divisivo, porque questiona o comprometimento para com a autoridade da Bíblia daqueles que não creiam na inerrância absoluta, e incentiva os inerrantistas a separarem-se de tais pessoas. As falácias e impacto negativo do argumento do barranco escorregadio devia levar cristãos responsáveis a abandoná-lo.

Conclusão. A doutrina da inerrância era atraente uma geração atrás no contexto das batalhas que os cristãos tiveram que combater contra a crítica liberal. Mas não há necessidade hoje de empenhar-se nessas batalhas novamente. Temos visto que os argumentos comumentes empregados hoje para defender a inerrância absoluta da Bíblia têm-se demonstrado destituídos de apoio bíblico e histórico. Por fim, tais argumentos expõem a Bíblia à crítica de críticos liberais que se comprazerão em capitalizar sobre as falácias de tais argumentos para atacarem a confiabilidade e autoridade da Bíblia.

Nosso desafio hoje é convencer as pessoas, não de que a Bíblia seja isenta de erro em todos os seus detalhes, mas que propicia uma revelação digna de confiança e infalível do plano de Deus para nossa vida presente e destino futuro. Precisamos ajudar as pessoas a evitarem tanto a armadilha da inerrância quanto do liberalismo da não-confiabilidade bíblica. Ambas as heresias solapam a autoridade da Bíblia tornado-a por demais humana ou demasiado divina.



O ENTENDIMENTO ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA DA NATUREZA DA BÍBLIA


Brevemente historiamos a controvérsia entre a errância e a inerrância da Bíblia. Fizemos notar que a Bíblia está sendo atacada hoje por amigos e inimigos. O pêndulo está se movendo para ambos os extremos. Por um lado, os críticos liberais reduzem a Bíblia a um livro estritamente humano contendo erros e isento de revelações sobrenaturais e manifestações milagrosas. Tratam a Bíblia estritamente como uma produção literária humana. Por outro lado, alguns evangélicos conservadores elevam a Bíblia a um nível tão divino que passam por alto a dimensão humana da Escritura. Afirmam que a Bíblia é absolutamente sem erro em todas as suas referências que tratam de história, geograria, cronologia, cosmologia, ciência, e assim por diante.

Por fim, tanto as posições de errância quanto de inerrância são pontos de vista extremos, heréticos que solapam a autoridade da Bíblia por torná-la, ou demasiada humana ou demasiada divina. A solução para essas posições extremadas se acha na palavra-chave “equilíbrio”—um equilíbrio que reconhece tanto o caráter divino quanto humano da Bíblia.

A Igreja Adventista do Sétimo Dia tem historicamente mantido uma visão equilibrada da Bíblia por reconhecer tanto seu caráter divino quanto humano. Muito do crédito para isso deve-se à direção profética de Ellen White que declarou inequivocamente: “A Bíblia é escrita por homens inspirados, mas não é o modo de pensamento e expressão de Deus. O Senhor não é representado como um escritor. Os homens muitas vezes dirão que tal expressão não reflete a Deus. Mas Deus não se colocou a Si mesmo em palavras, em lógica, em retórica, em julgamento na Bíblia. Os escritores bíblicos foram redatores de Deus, não Sua pena”.[9]

Em suma, os adventistas do sétimo dia crêem que a Bíblia é o produto de uma misteriosa combinação da participação divina e humana. A fonte é divina, os escritores são humanos, e os escritos contêm pensamentos divinos em linguagem humana. Esta combinação singular nos oferece uma revelação digna de confiança e infalível da vontade e plano de Deus para nossa vida presente e destino futuro. Como declarado na primeira das Crenças Fundamentais Adventistas do Sétimo Dia, “As Sagradas Escrituras são a revelação infalível de Sua vontade. São o padrão do caráter, o teste da experiência, a autoridade reveladora de doutrinas e o registro digno de confiança dos atos de Deus na história”.

Os adventistas do sétimo dia mantêm que a Bíblia é uma singular revelação da vontade e plano de Deus para a humanidade. Aceitam-na como a autoridade infalível e normativa para definir crenças e práticas. Crêem que nesse Livro Deus propicia à humanidade o conhecimento necessário para a salvação.

A primeira das Crenças Fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia oferece uma declaração concisa da crença da Igreja a respeito da Bíblia: “As Santas Escrituras, do Velho e Novo Testamentos, são a Palavra de Deus escrita, dada por inspiração divina mediante homens santos de Deus que falaram e escreveram segundo movidos pelo Espírito Santo. Em Sua Palavra, Deus comissionou ao homem o conhecimento necessário para a salvação. As Escrituras Sagradas são a infalível revelação de Sua vontade. São o padrão de caráter, o teste da experiência, a autoridade reveladora de doutrinas, e o registro digno de confiança dos atos de Deus na história”.

Esta Crença Fundamental mostra que os adventistas concordam com os cristãos conservadores que a Bíblia é divinamente inspirada e contém a infalível revelação da vontade de Deus para o nosso viver. Eles aceitam plenamente a divina autoridade e completa confiabilidade das Escrituras, mas nunca advogaram a doutrina da inerrância bíblica.

Objeções dos Adventistas à Inerrância.  Há cinco principais razões pelas quais os adventistas não adotam a doutrina da inerrância bíblica. Primeiro, os adventistas crêem que os autores bíblicos foram os redatores de Deus, e não a pena do Espírito Santo. Eles estavam plenamente envolvidos na produção de seus escritos. Alguns deles, como Lucas, reuniram as informações entrevistando testemunhas visuais do ministério de Cristo (Lucas 1:1-3). Outros, como os autores de Reis e Crônicas, fizeram uso de registros históricos que lhes estavam disponíveis. O fato de que tanto os escritores e suas fontes eram humanos, torna-se irreal insistir em que não há declarações inexatas na Bíblia.

Em segundo lugar, as tentativas dos inerrantistas em conciliar as diferenças entre as descrições bíblicas do mesmo evento, amiúde resulta em interpretações distorcidas e rebuscadas da Bíblia. Por exemplo, Harold Lindsell tenta conciliar os relatos divergentes da negação de Pedro de Jesus com relação ao cantar do galo  propondo que Pedro negou a Jesus um total de seis vezes!10 Tais especulações gratuitas podem ser evitadas por simplesmente aceitar a existência de discrepâncias de pequena monta nos relatos dos Evangelhos quanto à negação de Pedro.

Em terceiro lugar, por basear a confiabilidade e infalibilidade da Bíblia na exatidão de seus detalhes, a doutrina da inerrância ignora que a principal função da Escritura não é revelar o plano de Deus para a nossa salvação. A Bíblia não tem intenção de suprir-nos com informações geográficas, históricas ou culturais precisas, mas revelar-nos como Deus nos criou perfeitamente, remiu-nos completamente, e por fim nos restaurará.

Em quarto lugar, os adventistas acham a doutrina da inerrância bíblica carente de apoio bíblico. Em parte alguma os autores bíblicos reivindicam que suas declarações sejam inerrantes. Tal conceito tem sido deduzido a partir da idéia da inspiração divina. Presume-se que, sendo a Bíblia divinamente inspirada, deve também ser inerrante. Todavia, a Bíblia nunca faz a equivalência de inspiração com inerrância. A natureza da Bíblia deve ser definida indutivamente, ou seja, considerando-se todos os dados propiciados pela própria Bíblia, antes que dedutivamente, ou seja, por tirar conclusões de premissas subjetivas. Uma análise indutiva das discrepâncias existentes na Bíblia não apóia o ponto de vista de inerrância absoluta.

A Escritura Como Divina e Humana. A perspectiva adventista da Bíblia baseia-se em dois importantes versos: “Toda Escritura é inspirada por Deus” (2 Tim. 3:16) e “Nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana, entretanto homens santos falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo” (2 Ped. 1:21). Estes versos realçam o caráter divino-humano da Bíblia. As mensagens dos autores bíblicos originaram-se com Deus, mas foram expressas em linguagem humana, refletindo a base cultural e educacional dos escritores.

O reconhecimento da natureza divino-humana da Bíblia exclui dois grandes equívocos na consideração da Bíblia como discutidos neste capítulo. O primeiro é o ponto de vista inerrantista que exalta o aspcto divino da Escritura e minimiza a participação humana a fim de assegurar que o texto seja completamente livre de todos os erros. O segundo é o ponto de vista liberal dos críticos que mantêm que os escritos bíblicos simplesmente refletem idéias e aspirações humanas. Eles crêem que são o produto de gênios religiosos que foram influenciados—não pela inspiração do Espírito Santo—mas pela cultura de seu tempo.

Os adventistas rejeitam as errôneas posições mantidas pelos inerrantistas bíblicos, por um lado, e pelos críticos liberais, por outro. Em vez disso, sustentam um ponto de vista equilibrado da Bíblia, baseados em seu testemunho (2 Tim. 3:16; 1 Ped. 1:21) com respeito a seu caráter divino-humano. Os aspectos divino-humanos da Bíblia são misteriosamente fundidos, algo similar à união divino-humana da natureza de Cristo.

O livro sobre crenças adventistas Nisto Cremos, declara: “Um paralelo existe entre o Jesus encarnado e a Bíblia: Jesus foi Deus e homem combinados, o divino e o humano em um. Assim, a Bíblia é o divino e o humano combinados. Como foi dito de Cristo, assim pode ser afirmado da Bíblia, que ‘o Verbo se fez carne e habitou entre nós’ (João 1:14). A combinação divino-humana torna a Bíblia uma peça única de literatura”.[11]

A Humanidade da Bíblia. A humanidade da Bíblia pode ser vista, por exemplo, no uso do grego koine, que era a língua do mercado, antes que da literatura clássica. É evidente também no pobre estilo literário de tais livros como o Apocalipse, que tem um vocabulário limitado e alguns erros gramaticais. Aparece no uso de tradições orais por homens como Lucas, ou de registros escritos pelos autores de Reis e Crônicas. É refletido na expressão de emoções humanas em lugares como o Salmo 137 que descreve o sentimento dos cativos hebreus em Babilônia, dizendo: “Filha de Babilônia, que hás de ser destruída. . . . Feliz aquele que pegar teus filhos e esmagá-los contra a pedra”! (Sal. 137:8-9). Tal linguagem violenta expressa emoções humanas de profunda mágoa, antes que o divino amor por amigos e inimigos.

A Divindade da Bíblia. A divindade da Bíblia é sugerida pela unidade subjacente aos ensinos da Bíblia. Cerca de 40 autores escreveram 66 livros ao longo de 1600 anos, contudo todos compartilham o mesmo ponto de vista da criação, redenção e restauração final. Somente a inspiração divina poderia assegurar a unidade temática subjacente da Bíblia ao longo de séculos de sua composição.

Outra indicação do divino caráter da Bíblia é seu impacto sobre vidas e sociedades humanas. A Bíblia superou o ceticismo, preconceito e perseguição do mundo romano. Têm transformado os valores sociais e práticas de sociedades que abraçaram os seus ensinos. Tem atribuído novo valor à vida, um senso de valor ao indivíduo, uma nova condição às mulheres e escravos, derribado discriminações sociais e raciais, dado uma razão para viver, amar e servir a incontáveis milhões de pessoas.

O divino caráter da Bíblia é também indicado por seu maravilhoso conceito de Deus, da criação, redenção, natureza e destino humanos.. Tais elevados conceitos são estranhos aos livros sagrados das religiões pagãs. Por exemplo, nos mitos da criação do Oriente Próximo, o descanso divino é geralmente alcançado, seja por eliminar deuses perturbadores ou por criar a humanidade.[12]

No sábado da criação, contudo, o divino repouso é assegurado não por subordinar ou destruir competidores, nem por explorar o trabalho da humanidade, mas pelo completar de uma perfeita criação. Deus descansou no sétimo dia porque Seu trabalho estava “terminado . . . feito” (Gên. 2 :2-3). Ele cessou de fazer para expressar Seu desejo de estar com a Sua criação, por dar a Suas criaturas não somente coisas, mas a Si mesmo. Tal conceito maravilhoso de Deus, que entrou no tempo humano por ocasião da criação e na carne humana em função da encarnação a fim de fazer-se “Emanuel—Deus Conosco”, não se acha nas religiões pagãs, onde os deuses tipicamente compartilham das falhas humanas.

A admirável natureza da Bíblia é também indicada por sua miraculosa preservação ao longo da história, a despeito de incansáveis esforços de destruí-la. Anteriormente mencionamos as tentativas passadas de suprimir a Bíblia, pelos imperadores romanos, reis cristãos, e regimes comunistas. A despeito das deliberadas tentativas de destruir a Bíblia, seu texto nos veio substancialmente inalterado. Alguns dos mais antigos manuscritos nos levam para mais perto da composição dos originais. Revelam a impressionante exatidão do texto que tem chegado até nós. Podemos ser confiantes de que nossas Bíblias são versões confiáveis das mensagens originais.

Por fim, a validade da Bíblia é comprovada por considerações conceituais e existenciais. Conceitualmente, a Bíblia propicia uma explicação razoável de nossa situação humana e da solução divina para nossos problemas. Existencialmente, os ensinos da Bíblia dão significado a nossa existência e nos oferece razões para viver, amar e servir. Mediante eles podemos experimentar as ricas bênçãos da salvação.


NOTAS


1. Stephen T. Davis (nota 5), p. 25.
2. Ibid., p. 79.
3. Harold Lindsell (nota 4), pp. 41-71.
4. Cited by James Leo Garrett, Systematic Theology: Biblical, Historical, and Evangelical (Grand Rapids, 1990), p. 159.
5. John H. Gerstner, “The View of the Bible Held by the Church: Calvin and the Westminster Divines,” in Norman L. Geisler e William E. Nix, A General Introduction to the Bible (Chicago, 1986), p. 391.
6. Stephen T. Davis (nota 5), p. 32.
7. Citado por Harold Lindsell, The Bible in the Balance (Grand Rapids, 1979), p. 220.
8. Samuele Bacchiocchi, God’s Festivals in Scripture and History: Volume I, “The Spring Festivals” (Berrien Springs, 1998), pp. 54-59.
9. Ellen White, Selected Messages, (Washington, D. C., 1958), book 1, p. 21.
10. Harold Lindsel, pp.174-176.
11. Seventh-Day Adventist Believe . . . (Washington, D. C., 1988). p. 8.
12. Para uma discussão, ver R. Pettazzoni, “Myths of Beginning and Creation-Myths,” in Essays on the History of Religion, trad. H. T. Rose, 1954, pp. 24-36. Um tratamento breve mas informativo é encontrado em Niels-Erik A. Andreasen, The Old Testament Sabbath, SBL Dissertation Series 7, 1972, pp. 174-182. Por exemplo, no épico babilônico da criação de Enuma Elish, o deus Marduque declara: “Verdadeiramente, criarei um homem selvagem. Ele será encarregado com o serviço dos deuses, para que estes possam ficar ociosos!” (James B. Pritchard, ed. Ancient Near Eastern Texts, 1950, (UT krt A 206-211), p. 68.
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